A observação como estratégia pedagógica no processo de ensino-aprendizagem nos anos iniciais do Ensino Fundamental

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Por professor Dr. Tiago Escame Gimiliani

Na sociedade moderna, no século XXI, especialmente na educação das séries iniciais da rede pública, o professor tem enfrentado múltiplos desafios com alunos que apresentam dificuldades de aprendizagens na leitura e escrita. Muitas vezes, esses alunos estão no 4º ano ou 5º ano do Ensino Fundamental, tendo passado pela Educação Infantil e frequentado 1ª, 2º e 3º anos. Apesar de significativos investimentos feitos para esses alunos avançassem na aprendizagem, eles continuam enfrentando dificuldades persistentes.

Na realidade, a aprendizagem é um aspecto substancial na vida de todo cidadão. Estudos mostram que as dificuldades de aprendizagem durante o processo de escolarização têm raízes em princípios provenientes de séculos passados. Ao longo da história, a educação passou por diversas transformações, que foram acompanhadas por leis e debates sobre os rumos que deveria seguir. A Constituição Federal de 1988, em seu artigo 205, afirma “a educação é um direito de todos, visando o pleno desenvolvimento da pessoa […]” (BRASIL, 1988). Porém, o que se observa é um país com cerca de 9% de analfabetos acima de 10 anos, o que equivale a 18 milhões de brasileiros (IBGE, 2010). Com frequência, o número de discentes com dificuldades de aprendizagem tem aumentado, especialmente no que diz respeito à capacidade de assimilar informações simples. Isso tem gerado consequências significativas para os estudantes, que muitas vezes perdem o interesse pelo estudo, criando um clima de insegurança e de perda da autoestima, o que, por sua vez, leva ao abandono escolar.

Além disso, devemos refletir sobre o fato de que o professor está enfrentando um porcentual de alunos que ficaram desmotivamos a estudar durante a pandemia do COVID-19, devido ao desgaste causado pelo modelo remoto ou híbrido, que envolvia aulas presenciais e virtuais. Cito, então, o pronunciamento de Denis Mizne, diretor executivo da Fundação Leman, no site G1 Globo (2020), sobre a educação: “A evasão e o abandono escolar terá reflexo sobre o estudante, sua família e a sociedade, aumentando consideravelmente a desigualdade”. Por outro lado, vale destacar que, além de problemas cognitivos e emocionais que muitos alunos trazem para a escola, existem também aquelas relacionadas à prática pedagógica do professor, uma vez que nem todo aluno aprende da mesma maneira. A partir disso, a pergunta que fica é: como melhorar o desempenho de aprendizagem dos alunos?

Então, ao professor surge “A Teoria Cognitiva Social”, como uma estratégia metodológica adicional em sala de aula para os alunos com dificuldades de aprendizagem. Para Bandura (1963), as pessoas não aprendem a menos que prestem atenção a aspectos significativos, que valorizem atitudes relevantes e que reconheçam um valor funcional, aspectos que tendem a chamar atenção dos alunos.
Abert Bandura, psicólogo canadense, nasceu em 1925, no Canadá. Professor da Universidade Stanford, ele e seus colaboradores desenvolveram a Teoria Cognitiva Social, em um primeiro momento, foi definida como Teoria da Aprendizagem Social, baseada no princípio da aprendizagem observacional.

Conforme Bandura (1963), a Teoria da Aprendizagem Social estabelece que o comportamento humano é fruto de uma interação recíproca e ininterrupta entre fatores cognitivos, comportamentais e ambientais. Nesse sentido, Ormrod (1999) posiciona Albert Bandura como uma figura central nessa abordagem, que funciona como um “elo” fundamental entre o Behaviorismo tradicional e as teorias cognitivas contemporâneas. Diferente de modelos puramente reativos, aqui o aprendiz é reconhecido como um sujeito ativo: a aprendizagem ocorre na interseção entre a atividade mental e o contexto externo. Esse processo de aquisição de novos conhecimentos dá-se pela observação e imitação, mas é precedido por uma atividade reflexiva. A imitação, portanto, não é automática, na medida em que ela é modulada por processos mediadores essenciais, como o ambiente, a atenção seletiva e a motivação do indivíduo.

Ao falar de ambiente, é importante destacar que a sala de aula se produz como um espaço diverso e heterogêneo. O professor deve observar se o ambiente tem fascinado, ou melhor, se ele tem atuado como facilitador para que o aluno queira aprender. Para que ocorra um comportamento de imitação, o ambiente precisa despertar a atenção do aluno. A aprendizagem social acontece a partir da interação entre a mente do aprendiz e o ambiente ao seu redor, em outras palavras, educa-se pelo exemplo e pelas ações.Para que um comportamento seja aprendido por imitação, ele precisa chamar a nossa atenção, assim como a dos nossos neurônios-espelho. Em meados de 1990, na Universidade de Parma, Giacomo Rizzolati e seus colaboradores descobriram neurônios no cérebro que são responsáveis por aprendizagem por imitação. Neurônio-espelho, uma descoberta da Neurociência, está ligado à visão e ao movimento, permitindo o aprendizado por imitação. Dessa forma, as áreas pré-motoras que contém neurônios-espelho também estão envolvidas na compreensão da intenção da ação (Lacoboni et al., 2005).

Em seguida, temos a motivação, que deve ser o motor para o aluno realizar determinado comportamento que observa. No entanto, Bandura (1963), ressalta que observar apenas não basta, é necessário analisar quais recompensas ou consequências o aluno obtém devido a esse comportamento. Se o reforço vicário (aprender por observação dos outros) não é visto como importante, com certeza, não será imitado. O autor salienta a importância dos fatores mentais (cognitivos) na aprendizagem, em que os alunos são ativos ao processar e valorizar a informação e a relação existente.
Importa frisar que compreender quais os mecanismos desencadeiam um comportamento ou uma habilidade sempre foi um dos focos dos estudos da Psicologia. Bandura (1963) traz um salto quantitativo ao abordar a interação entre a mente do aprendiz e o ambiente ao seu redor, propondo que o aprendizado é bidirecional, o que significa que nós aprendemos com o meio, e o meio aprende e se modifica graça às nossas ações.

A aprendizagem por observação, por meio de modelagem, pode ser muito para o aluno em sala de aula, na medida em que ela ocorre a partir da observação de outras pessoas, que fornecem experiências indiretas (vicárias). Assim, a observação é seguida por um processo cognitivo, que implica dizer que esse tipo de aprendizagem não é uma pura imitação, visto que ela necessita de representação simbólica, que é peculiar a cada indivíduo e situação. O processo envolve mecanismos de atenção, produção comportamental e motivação (Feist & Feist, 2008).

Logo, pode-se afirmar que, no cotidiano escolar, a imitação é pouco discutida ou, muitas vezes, naturalizada, o que impede uma visão mais ampla do processo de ensino e aprendizagem. Ou seja, estimular a habilidade de imitação nos alunos é como dar uma ferramenta preciosa para que possam avançar nas diversas esferas do desenvolvimento. A atividade profissional docente exige a produção permanente do sujeito professor, que, como mediador do conhecimento, deve identificar conceitos relevantes em cada conteúdo, pois “[…] o aluno é um ser social com cultura, linguagem e valores específicos aos quais ele deve estar sempre atento, inclusive para evitar que seus próprios valores não impeçam de auxiliar a criança em seu processo de aprender (José & Coelho, 1999, p. 24).

Esta análise evidencia que o processamento humano de informações é regido pela atenção seletiva, um filtro condicionado por variáveis sociodemográficas e culturais, como gênero, idade e contexto étnico-social. No campo pedagógico, a eficácia desse mecanismo é proporcional ao nível de engajamento do estudante: quanto maior o foco atencional, mais refinada será a decodificação da experiência observada. Esse processo culmina na retenção e no armazenamento cerebral organizado por padrões, que integram tanto representações imagéticas quanto construções verbais. Sob a ótica de Bandura (1963), o docente assume um papel central como agente de modelagem. Sua influência transcende o conteúdo curricular, manifestando-se por meio de seu comportamento e atitudes. No ecossistema escolar, em conjunto com a célula familiar, o professor torna-se um modelo cujos gestos, preferências e posturas são internalizados e mimetizados pelos alunos.

A sociedade se transformou e o contexto educativo tem testemunhado essas mudanças. No entanto, como apontei anteriormente, a discussão sobre aprendizagem por observação ou imitação no cotidiano escolar é pouco abordada e, até mesmo, naturalizada no processo de ensino e aprendizagem. Na Teoria da Aprendizagem Social, desenvolvimento e aprendizagem são processos inseparáveis (Gherardi & Nicolini, 2003).
Assim sendo, o professor deve abrir seu leque de conhecimentos e, se preciso, diversificar suas metodologias sobre como os alunos podem aprender, criando oportunidades que promovam o avanço das suas capacidades cognitivas. O discente, tendo um desempenho motivado, pode antecipar consequências, formular crenças sobre o que deseja alcançar, estabelecer objetivos para si mesmo e traçar planos de ação para alcançar suas metas (Bandura, 1963).

No contexto da aprendizagem escolar, um dos maiores desafios do docente consiste em compreender as ações pedagógicas e o papel que assume no processo de ensino e aprendizagem (Mitre et al., 2008). A formação de um profissional comprometido com uma educação de qualidade requer aperfeiçoamento contínuo, sendo essencial que a escola cumpra o seu papel e que o docente compreenda e respeite as diferenças individuais. Cada aluno, apesar das influências do meio, aprende a sua maneira, de acordo com suas condições e no seu próprio ritmo de aprendizagem.

Enfim, pode-se afirmar que, no contexto educacional, o professor deve proporcionar aos alunos condições e oportunidades para se tornarem protagonistas no processo de aprendizagem. A observação como forma de aprendizagem pode ser a base da nossa educação e o início do processo de socialização, além de contribuir no desenvolvimento do comportamento dos estudantes.

Referências bibliográficas
BANDURA, Albert; WALTERS, Richard H. Social learning and personality development. New York: Holt, Rinehart and Winston, 1963.
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FEIST, Jess; FEIST, Gregory J. Teorias da Personalidade. São Paulo: McGraw-Hill, 2008.
GHERARDI, Silvia; NICOLINI, Davide. The sociological foundations of organizational learning. In: SMITH, Michael E.; et al. (Org.). Handbook of Organizational Learning & Knowledge. New York: Oxford University Press, 2003.
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MIZNE, Denis. O grave efeito colateral da Covid-19 na educação. Globo, 2020. Disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/opiniao/post/o-grave-efeito-colateral-da-covid-na-educacao.html. Acesso em: 29 dez. 2021.
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